Sonhos Apagados
Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, meu Ben
Meus sapatos ressoavam pelo amplo e iluminado corredor. Lâmpadas de todas as cores, formas e tamanhos decoravam o ambiente sisudo de mármore. Eu acompanhava as costas da secretária que vestia um terno feminino justo em tons terrosos e rebolava a cada passo. Atravessamos uma porta automática de vidro e sentei em um longo sofá de couro cercado por dois abajures. A parede à minha frente tinha um circuito labiríntico de luzes e lustres que me hipnotizava. Um painel de LED exibia propagandas.
-Pode entrar, Clóvis.
Eu entrei em uma sala de reunião abarrotada de engravatados calvos e bigodudos. Alguns com bigodes sujos de molho de tomate. Na ponta da mesa, o presidente da Itália gesticulou com as mãos.
-Siediti, Bello.
-Opa, claro.
-Hai letto tutto il contratto?
-Li o contrato todo sim. Me pareceu vantajoso até.
-Quello che possiamo offrirti è lo 0,1%. Va bene così o ne vuoi di più, bambino?
-Desculpa, meu italiano é meio limitado.
-Ah, brasileiros… O que podemos te oferecer é 0,1%. Tá bom ou quer mais, menino?
-Acho pouco.
-É pegar ou largar.
-Eu aceito.
-Negócio fechado, bambino!
Os dois apertaram as mãos. Os engravatados aplaudiram de maneira protocolar.
Dias depois.
Depois de um longo dia de trabalho e um pouco de trânsito e chuva, Martina conseguiu chegar em casa com os sapatos e cabelos molhados. Saiu do elevador e, do corredor, notou uma aura de claridade circundando a porta do nosso apartamento. Quando a abriu, quase ficou cega. Era como se um farol alto na estrada tivesse adentrado suas pupilas. Por algum motivo aparentemente inexplicável, todas as luzes da casa estavam acesas. Ela atravessou o claridão conforme a íris do seu olho ia contraindo para se adequar à quantidade despropositada de luminosidade. Avistou um vulto no sofá: era eu, seu marido.
-Clóvis, que tá acontecendo?
-Que foi, amor?
-O que é esse tanto de luz acesa? Virou sócio da ENEL?
-Virei. No começo da semana comprei uma fatia da empresa.
-Para de brincadeira e apaga essa luz!
-Não é brincadeira. Eu me reuni com os caras. Realizei o sonho!
-Que sonho? Que papo é esse?
-Deixa eu te mostrar o contrato.
-Qual a necessidade de tanta luz acesa? - disse Martina desligando uns interruptores que ia encontrando pelo caminho. Eu voltei do escritório com o contrato em mãos.
-Olha que legal.
-Contrato de sociedade? Você virou mesmo sócio?
-Da ENEL.
-Não é possível.
-É sim.
-Mas por quê?
-Ué, não é óbvio? Já estou vivendo o sonho. - respondi mostrando meu entorno.
-Clóvis, eu não tô acreditando.
-Foi uma baita negociação difícil, amor. Aqueles italianos são duros na queda.
-Quanto dinheiro você gastou nessas quotas?
-Ah, pouca coisa.
-Quanto?
-Dez anos de conta de luz.
-O quê?
-Mas depois desses primeiros dez aninhos, é só lucro. Na verdade, a partir de agora é só ganho, porque já tá pago. Já lavei e sequei cinco bateladas de roupas. Instalei um frigobar. Ar condicionado tá no talo. É energia sem limites!
-Aqui tá escrito que você só tem 0,01% da empresa. Isso não deve custear nem uma semana do que a gente gasta de luz.
-Não, não, eu fiz as contas… é bem mais que isso porque é 0,01% de todo o lucro deles.
-Eu não quero saber, apaga essa luz toda, seu maluco! - disse Martina caçando interruptores pela casa super iluminada. Comecei a correr atrás dela.
-Acende, acende mais. - respondi acendendo cada interruptor que ela ousava apagar no meu império de luzes.
-Essa sociedade com a ENEL subiu à sua cabeça, meu amorzinho.
-Ah, você tá com inveja de mim. Você queria ser sócia da ENEL também! - assim que terminei essa frase recheada de maturidade, a energia da casa caiu. - Vixe.
-Putz. Acho que você usou nossa cota de luz do mês.
-Será? - respondi olhando pela janela. - Não, parece que todo o quarteirão tá sem luz.
A campainha tocou. Fui até a porta e me deparei com a Dona Lourdes do 73 e o Seu Mauro do 44.
-Boa noite Clóvis. - disse a Dona Lourdes com sua antipatia habitual.
-Boa noite, gente.
-Já tem previsão para retorno da luz? - indagou Seu Mauro com uma baforada de cigarro.
-Não sei.
-Cadê os técnicos trabalhando?
-Boa pergunta. Também queria saber, mas…
-Ué, você não é sócio da ENEL? Coloca seus funcionários para trabalhar!
-Pois é, que corpo mole é esse?
-Calma, gente, não é bem assim…
Naquele instante, mais vizinhos começaram a surgir das escadas de cima e de baixo, formando uma pequena multidão na porta do meu apê e um vozerio insuportável de cobranças.
-Quando volta a luz?
-Vai ficar aí parado, senhor sócio da Enel?
-Sua companhia é uma merda, cara!
-Resolve logo isso, vou perder a novela!
-Preciso secar meu cabelo, moço!
-Dá uma previsão aí!
-Esse é o sócio? Achei que fosse italiano.
-Resolve lá, prefeito!
-Acho que ele não é o prefeito.
-Fora Enel!
-AAAAAHHHH! - gritei fechando a porta na cara deles com resistência do exército zumbi. Sentei no chão, atordoado.
-Tá gostando de viver o sonho? - disse Martina sentando ao meu lado.
Foram três dias de blecaute. Aproveitei para fugir do prédio quando ninguém estivesse olhando, ir até o escritório de advocacia e rescindir o contrato com os italianos. Eles toparam, com a condição de que eu pagasse o dobro na conta de luz pelos próximos dez anos. Depois de muita negociação, caiu para cinco anos. Achei justo. Voltei pra casa arrasado. Meu sonho se apagou.



Muito boa essa! Adorei.