Duolinguer
Falstaff dévoile la condition humaine.
O renomado paleontólogo-sociólogo francês Gerard Gerard desceu da aeronave das forças aéreas brasileiras usando seu tradicional cardigan e uma boina para que ninguém duvidasse de sua nacionalidade. Deu um leve sorriso para os comissários de bordo. Bem leve para que mais uma vez não duvidassem de sua nacionalidade. Do aeroporto internacional de Guarulhos foi levado em um carro oficial do governo paulista direto para o centro de convenções onde era aguardado pela comunidade científica para o XXLHVII½ Congresso Internacional de Paleontologia, o mais importante simpósio na área. O motorista lhe ofereceu uma tábua de queijos, que ele aceitou para que não duvidassem de sua nacionalidade. Era queijo mineiro e ele fingiu achar inferior ao francês para que mais uma vez… acho que vocês entenderam.
Gerard roeu as unhas e abriu o duolingo. Fez uma lição de português e conferiu que continuava em primeiro na divisão diamante. Ele havia passado o último mês estudando intensamente para conseguir, pela primeira vez na história, ser um cientista francês a falar português em um evento brasileiro. Estava tão craque no duolingo que lhe foi concedido o plano super família vitalício gratuitamente. Quando desceu do carro, os fotógrafos caíram em cima, jornalistas o cercaram gritando seu nome e com perguntas pertinentes como qual era sua palavra favorita no português, seu dinossauro favorito e sua loira do Tchan. Ele apenas respondeu “Sheila”, deixando a imprensa em choque.
Faltavam poucos minutos para sua participação no debate “A sociedade paleolítica - como viviam e quais eram os hobbies dos dinossauros”. No camarim, Gerard deu um gole de água e tomou seu remédio para ansiedade. Limpou os óculos no cardigan e, ao ouvir seu nome dito em alto e bom som, entrou no palco ao som de aplausos. Sentou na cadeira ao lado do mediador Carlos Darvinío.
-É uma honra muito grande estar na sua presença, doutor Gerard Gerard. Eu queria começar questionando como você enxerga a teoria da formação de uma sociedade moderna no período jurássico. As evidências de que triceratops jogavam golfe no domingão comendo churrasco enquanto a classe dos pterodátilos vivia na correria fazendo delivery me chamam muita atenção na sua tese. Pode explicar pra gente?
-Boa tarde. Eu me chamo Gerard.
A platéia aplaudiu efusivamente.
-Eu sou um homem.
Aplaudiram mais uma vez.
-Eu gosto de dinossauros.
A platéia riu. Depois se instaurou um silêncio constrangedor.
-Sim, não tenho dúvida disso. - retomou a palavra o mediador - Todos nós aqui gostamos, senão não estaríamos no XXLHVII½ Congresso Internacional de Paleontologia.
-Você gosta de dinossauros?
-Gosto muito.
-Que bom! Eu também.
A platéia deu risada de novo.
-Seu senso de humor me encanta, Gerard. Mas vamos direto ao ponto. Explica pra gente a teoria da sociedade moderna no período jurássico.
-Eu tomo café da manhã.
-Parece que o nosso convidado está com fome… produção, manda uns queijos pra cá, por favor. Croissant. Mas voltando…
-Eu como pão na chapa no café da manhã.
-Oi?
-Pão. Na. Chapa.
-Troca os croissants por pão na chapa, produção.
-Maria é do Rio de Janeiro. Maria é divertida.
-Maria?
-João come pão. João almoça arroz com feijão. - disse Gerard com a confiança de quem sabe o que diz.
-Ainda falta um pouco para o almoço. Eu já pedi uns queijos para você. Agora, me conta…
-João e Maria almoçam em São Paulo.
-Quem são João e Maria?
-João e Maria são brasileiros.
-Brasileiros… Espera! Dinossauros brasileiros?! Parece que estamos diante de uma nova descoberta!
A platéia reagiu animada.
-Você descobriu fósseis de dinossauros em território nacional? Já deu nomes para eles?
-Eu gosto de dinossauros.
A platéia reagiu indignada. Uma bandeja com queijos, pães na chapa e croissants foi servida no palco. O mediador deu uma mordida.
-Servido, Gerard? Mas vamos lá, me conta desses dinossauros brasileiros, que eu percebo que você gosta.
-Você gosta de dinossauros. Ele gosta de pão.
-Eu gosto de croissant. Nossa, tá uma delícia…
-Você gosta de pão.
-Eu sinto que essa conversa tá andando um pouco em círculos… quer que eu chame um tradutor?
-Não! Não, não, não, eu falo português. - respondeu Gerard ofendido.
-Está falando português mesmo…
-Pardon… Você fala português.
-E os dinossauros?
-Eu gosto de dinossauros.
-A gente sabe! A gente entendeu! Agora será que você pode formar sentenças complexas?!
Gerard ficou em silêncio. Todos olhavam com grande expectativa para ele.
-João e Maria… não são dinossauros.
A multidão ficou boquiaberta.
-Quem são João e Maria, doutor? Trabalham com você?
-João… e… Maria… bebem água.
-Acho que o convidado está com sede… produção, por favor.
A água foi servida, Gerard deu um gole com gosto e voltou a falar.
-Eu bebo água.
A platéia ficou mais indignada.
-Eu também. Também bebo água. - disse o mediador bebendo água.
-Dinossauros bebiam água. Dinossauros tomavam café da manhã. Dinossauros almoçavam arroz e feijão. Dinossauros viviam igual João e Maria vivem hoje.
Todos ficaram em silêncio. Finalmente Gerard parecia estar chegando em algum lugar.
-Sim, essa é sua teoria da sociedade jurássica, doutor… - explicou o mediador.- conta mais.
Naquele instante o celular de Gerard vibrou e ele tirou o aparelho do bolso com pressa. Arregalou os olhos. Ele tinha caído para segundo lugar na divisão diamante.
-Mon offensive de duolingo! - exclamou Gerard começando a jogar duolingo no palco. O mediador convocou mais uma vez a produção, que plugou um cabo no smartphone do paleontólogo. A tela do dispositivo foi projetada no telão. A platéia assistiu atônita o cientista fazendo exercícios de escrita, escuta e fala. Ele acertou 100% das questões em menos de um minuto, um novo recorde para a plataforma. “Você não existe! 200 xp para você! Você ganhou um bônus para usar nos próximos 20 minutos” disse a corujinha verde dentro da tela. Uma salva de palmas tomou conta da platéia. O mediador Carlos Darvínio ficou boquiaberto. Gerard soltou o microfone no chão e foi aplaudido de pé. Em seguida voltou a jogar para não perder seu bônus e mais uma vez levou a platéia à loucura com suas habilidades. Ninguém nunca soube os detalhes de sua tese sobre os dinossauros, mas ele logo viciou toda a comunidade científica no duolingo, atrasando em alguns anos o avanço da pesquisa mundial.


